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A Lenda do Buda
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A LENDA DO BUDA é um testemunho, não do que Buda foi, mas sim do que chegou a ser em muito pouco tempo. Pesquisadores acrescentam que o budismo encontrou sua expressão mais profunda tanto no lendário como no mítico. A lenda nos revela o que acreditaram inumeráveis gerações de homens piedosos e segue perdurando na mente de grande parte da humanidade.
A biografia começa no céu. O Bodhisatva (o que chegará a ser Buda, título que significa "O Desperto") logrou, por méritos acumulados em infinitas encarnações anteriores, nascer no quarto céu dos deuses. Olha a terra do alto e examina atentamente o século, o continente, o reino e a casta em que renascerá para ser Buda e salvar os homens. Escolhe sua mãe, a rainha Maya (nome que significa a força mágica que cria o universo ilusório), mulher de Sudohodana, que é rei na cidade de Kapilavastu, ao sul de Nepal. Maya sonha que entra em seu flanco um elefante de seis presas, tendo o corpo branco como a neve e a cabeça cor de rubi. Ao despertar, a rainha não sente qualquer dor ou sensação de peso, mas tão somente agilidade e bem estar. Os deuses criam um palácio em seu corpo; neste recinto, o Bodhisatva espera rezando a sua hora. No segundo mês da primavera a rainha atravessa um jardim, e uma árvore, cujas folhas resplandecem como a plumagem de um pavão real, lhe estende um ramo que ela aceita com naturalidade. Neste momento o Bodhisatva se levanta e nasce pelo flanco direito da rainha sem lhe causar mal. O recém-nascido dá sete passos, olha à direita e à esquerda, acima e abaixo, atrás e adiante, constata que no universo não há outro igual a ele e anuncia com voz de leão: Sou o primeiro e o melhor, este é o meu último nascimento e venho dar fim à dor, à doença e à morte. Duas nuvens vertem água fria e quente para banhar mãe e filho; os cegos enxergam, os surdos ouvem, os aleijados caminham, os instrumentos musicais tocam sozinhos; os deuses do quatro céu se regozijam, cantam e dançam; os condenados no inferno esquecem sua dor. Naquele mesmo instante nasce sua futura mulher, Yosodhara, como nascem também seu cocheiro, seu cavalo, seu elefante e a árvore a cuja sombra chegará a libertação. O menino recebe o nome de Sidharta e também é conhecido pelo nome de Gautama, que foi adotado por sua família, os Sakyas.
A mãe morre aos sete dias de haver nascido o Bodhisatva e sobe aos céus dos trinta e três devas. Um vidente, Asita, ouve o júbilo destas divindades, desce da montanha, toma o menino em seus braços e diz: É o incomparável. Comprova nele as marcas do eleito: uma espécie de alta coroa orgânica na metade do crânio, pestanas de boi, quarenta dentes muito unidos e brancos, queixada de leão, altura igual à extensão dos braços abertos, cor dourada, membranas interdigitais e centenas de formas desenhadas nas plantas dos pés, entre as quais figuram o tigre, o elefante, a flor de lótus, a montanha piramidal Meru, a roda e a suástica. Em seguida Asita chora porque se sabe demasiado velho para receber a doutrina que o Buda predicará no futuro.
Os intérpretes do sonho de Maya profetizaram que seu filho será dono do mundo (um grande rei) ou o redentor do mundo. O seu pai prefere o primeiro e faz erguer três palácios para Sidharta, dos quais exclui tudo que possa revelar a ele a sensibilidade, a dor ou a morte. O príncipe se casa ao cumprir dezenove anos de idade, porém antes deve ser vencedor em varias competições, que incluem a caligrafia, a botânica, a gramática, a luta, a corrida, o salto e a natação. Deve também triunfar na prova do arco. A flecha disparada por Sidharta cai mais longe que todas as demais, e onde cai brota uma fonte. Estes lauréis são símbolos de sua futura vitória sobre o demônio.
Dez anos de ilusória felicidade transcorrem para o príncipe, dedicados aos gozos dos sentidos em seu palácio, cujo harém abriga oitenta e quatro mil mulheres. Sidharta, porém, sai certa manhã em seu carro e vê, com assombro, um homem encurvado "cujo cabelo não é como o dos outros, cujo corpo não é como o dos demais", e que se apoia em um bastão para caminhar e cuja carne treme. Pergunta que homem é aquele e o cocheiro lhe responde que é um velho, e que todos os homens da terra serão um dia como ele. Em outra saída, vê um homem devorado pela lepra, e o cocheiro lhe explica que se trata de um doente e que ninguém está livre desse perigo. Em outra mais vê um homem a quem levam em um féretro, e lhe explicam que este homem imóvel é um morto e que morrer é a lei de todo aquele que nasce. Na última saída vê um monge das ordens mendicantes que não deseja nem morrer nem tampouco viver ( nas últimas formas da lenda, estas quatro figuras são fantasmas ou anjos). A paz está espelhada em sua face; Sidharta encontrou o caminho.
Na noite em que toma a decisão de renunciar ao mundo, lhe anunciam que sua mulher, havia dado a luz a um filho. Regressa ao palácio e à meia-noite, após despertar, percorre o harém e vê mulheres adormecidas. A uma escorre baba pela boca; outra, com os cabelos soltos e desordenados, parece Ter sido pisoteada por elefantes; outra fala dormindo; outra mostra seu corpo cheio de chagas; e todas parecem mortas. Sidharta diz: "Assim são as mulheres, impuras e monstruosas no mundo dos seres mortais; o homem porém, enganado por seus adornos, as julga cobiçáveis". Entra no aposento de Yasodhara e a vê dormindo com a mão sobre a cabeça do filho. Pensa: "Se retiro essa mão de seu lugar, minha mulher despertará; quando for Buda voltarei e tocarei meu filho".
Foge do palácio rumo ao oriente. Os cascos do cavalo não tocam a terra, as portas da cidade se abrem sozinhas. Atravessam um rio, despede o serviçal que o acompanha, entrega a ele seu cavalo e suas vestes e corta o cabelo com a espada. Atira o cabelo cortado para o alto e os deuses o recolhem como relíquia. Um anjo que assumiu a forma de um asceta lhe entrega as três peças do traje amarelo, o cinto, a navalha, a tigela para esmolas, a agulha e a peneira para filtrar a água. O cavalo regressa e morre de dor.
Sidharta fica sete dias na solidão. Depois procura os ascetas que moram na selva; uns estão vestidos de ervas, outros de folhas. Todos se alimentam de frutos; uns comem uma vez por dia, outro cada dois dias e outros cada três. Rendem culto à água, ao fogo, ao sol ou à lua. Existe quem esteja sobre um único pé e outros que dormem sobre leitos de espinhos. Estes homens lhe falam dos mestres que vivem no norte, mas as razões destes mestres não o satisfazem.
Sidharta vai para as montanhas, onde passa seis duros anos entregue à mortificação e ao jejum. Não muda de lugar quando sobre ele caem a chuva ou o sol; os deuses crêem que morreu. Compreende, finalmente, que os exercícios de mortificação são inúteis; levanta-se, banha o corpo nas águas do rio e come um pouco de arroz. Seu corpo recobra imediatamente o antigo fulgor, os sinais que Asita reconheceu e a auréola perdida. Pássaros voam sobre sua cabeça para render-lhe homenagem e o Bodhisatva senta-se à sombra da árvore da iluminação e se põe a pensar. Resolve não levantar-se daí até haver alcançado a iluminação.
Mara, o deus do amor, do pecado e da morte, ataca então a Sidharta. Este mágico duelo ou batalha dura uma parte da noite. Mara, antes de combater, sonha que foi vencido, que foi perdido seu diadema, murchas as flores e secos os tanques dos palácios, rompidas as cordas dos seus instrumentos musicais, coberta de pó a sua cabeça. Sonha que durante a luta não pode desembainhar a espada, mas congrega, apesar de tudo, um vasto exército de demônios, tigres, leões, panteras, gigantes e serpentes alguns eram grandes como palmeiras e outros pequenos como crianças -, cavalga um elefante de cento e cinqüenta milhas de altura e assume um corpo com quinhentas cabeças, quinhentas línguas de fogo e mil braços, cada um deles com uma arma diferente. Os exércitos de Mara arrojam montanhas de fogo sobre Sidharta e estas, por obra do seu amor, se convertem em palácios de flores. Os projéteis formam um alto docel sobre sua cabeça. Mara, vencido, ordena a suas filhas que tentem seu antagonista, e elas o assediam e lhe dizem que estão feitas para o amor e para a música. Sidharta, porém, recorda-lhes que são ilusórias e irreais, e, apontando-lhes o dedo, as transforma em velhas decrépitas. Coberto de confusão, o exército de Mara se Dispersa.
Só e imóvel sob a árvore, Sidharta vê suas infinitas encarnações anteriores e as de todas as criaturas; abarca com um golpe de vista os inumeráveis mundos do universo; depois, a concatenação de todas as causas e efeitos. Intui ao amanhecer as quatro verdades sagradas. Já não é o príncipe Sidharta, é o Buda. As hierarquias dos deuses e os budas futuros o adoram, porém ele exclama:
"Recorri o círculo de muitas encarnações buscando o arquiteto.
É duro nascer tantas vezes.
Arquiteto, finalmente te encontrei.
Nunca voltarás a construir a casa".
Aqui termina a mais antiga forma da lenda, o evangelho de Nepal e do Tibé. Diz: Karl Friedrich Koppen Professor alemão contemporâneo, estudioso da Índia, do Nepal, Chile e Tibé. (N.T.)
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